300: o outro lado da hist�ria
Cap�tulo Doze
Momentos mais tarde, Artemis busca coragem em sua alma e abre a porta do quarto onde Lassir havia sido confinado. Lá dentro, encontra a serva organizando alguns tecidos em um baú de madeira cuidadosamente talhado por algum artesão.
A serva leva seus olhos para o Capitão e o mantém sua inexpressividade. Tinha uma marca feia num dos lados do rosto, como se fosse uma queimadura.
- Posso ajudá-lo em alguma coisa, senhor?
- Eu sou o Capitão Artemis, da guarda pessoal do rei. Quero ver Lassir.
- Minha Rainha está no banho. Eu vou avisar que...
O soldado não espera a autorização e invade o espaço. Ele sabia onde ficava o espaço para banho, nos quartos. Não é impedido pela serva, mas é paralisado pela imagem que vê naquele lugar: enxugando-se suavemente, estava Lassir com seus contornos arredondados pela gravidez. Os músculos moldados pelos exercícios ainda estavam nítidos, mas algumas mudanças tinham ocorrido.
- Permita a minha entrada, Lassir.
Enrolando-se num tecido grande, Lassir se empertiga e observa o Capitão aproximando-se.
- Como você está?
- Estou bem. E o senhor?
O homem mais velho sorri sem graça.
- Vou vivendo. Soube de meu filho?
- Sim. Soube que ele morreu como um herói. Eu lamento, mas esta é a sorte de quem vai para batalhas: ou retorna com seu escudo ou sobre ele.
Artemis aproxima-se ainda mais de Lassir. Exibe o anel em seu dedo.
- Este anel pertence ao meu irmão. O que o senhor faz com ele?
- Como vim em nome do Rei Leônidas, precisarei usar o anel como prova. Sou a voz dele neste palácio e todas as decisões que eu tomar, deverão ser respeitadas como se fossem do próprio rei.
- Meus parabéns pela confiança que recebeu. – Lassir enrola-se ainda mais e esconde a barriga dos olhos do Capitão.
O Capitão aproxima-se e invade o espaço pessoal de Lassir. Sente o cheiro das ervas usadas no banho, para aromatização.
- Por saber de minha dor, o rei Leônidas autorizou-me a casar-me novamente.
- E é preciso a autorização do rei? O senhor é viúvo...
- Agora que todos sabem que você é uma mulher, eu me atrevi a pedir autorização para desposá-la, Lassir. Eu serei o pai de seu bebê e poderemos ter outros tantos.
Sem qualquer alteração em seus traços bonitos, Lassir continua encarando o soldado e aguardando a conclusão da fala.
- Eu sempre senti atração por você, Lassir, porém não me aventurei porque pensei que você fosse um homem. Tampouco me atrevi a pedir para que fosse meu companheiro de guerra. Mas agora não vejo empecilhos que me impeçam de declarar o meu amor.
- Capitão Artemis, eu não pretendo casar-me nem com o senhor, nem com outra pessoa. Vou ter meu bebê longe das regras de Esparta e tenho condições de criá-lo sozinho.
- Uma mulher sozinha...
- Um homem sozinho, pai de uma criança e é só. – Lassir afasta-se. – Eu não quero ver meu bebê ser examinado por sacerdotes e ter o destino traçado por eles, caso tenha alguma deformidade. Quero que meu bebê seja livre.
- Poderemos fazer isso juntos, Lassir! Quando vencermos o rei Xerxes, poderemos partir de Esparta e criar nossos filhos em outro lugar.
Lassir estende a mão e toca o ombro forte do soldado.
- Eu vivi no palácio de Xerxes e pude conviver diariamente com as mais diversas deformidades e posso afirmar que conheci a felicidade ali dentro.
O rosto de Artemis sofre uma transformação.
-Vi pessoas limitadas fisicamente e que seriam atiradas ao precipício, caso tivessem nascido em Esparta. Lá, eram pessoas talentosas, felizes, riam, sentiam prazer e podiam amar. Não havia divisão entre os perfeitos e os imperfeitos. E é isso que quero para meu bebê.
- Case-se comigo e não permitirei que nada de ruim aconteça ao seu bebê, mesmo que seja disforme. Eu protegerei vocês dois.
Um sorriso surge nos lábios pequenos de Lassir.
- Existem muitas jovens espartanas que amariam ser desposadas pelo senhor. Eu não tenho anseio em casar-me. Eu já me casei.
- Depois do nascimento de seu bebê, voltaremos a conversar. – Artemis sorri e sai do quarto.